Saúde

Alimentos funcionais, eles realmente fazem a diferença?

Nos últimos anos, muito se tem falado a respeito dos chamados alimentos funcionais. Eles se tornaram pauta de matérias em jornais, revistas, programas de TV e ao que tudo indica sua fama está longe de chegar ao fim. E tudo isso, fomentado pelo constante interesse da população em saber cada vez mais sobre esses alimentos e suas propriedades específicas.

Para aprofundar o assunto e descobrir curiosidades e mitos sobre os alimentos funcionais, a Medilar News entrevistou a médica nutróloga do SOS Unimed Curitiba, Dra. Marcela Aimone.

 

Confira a entrevista!

Medilar News. Dra. Marcela, o que são e de que forma os alimentos funcionais podem auxiliar nossa saúde?

Dra. Marcela Aimone. São considerados funcionais aqueles alimentos cujas propriedades estão relacionadas ao papel metabólico ou fisiológico que um nutriente (exemplo: fibras) ou não nutriente (exemplo: licopeno) tem no crescimento, desenvolvimento, manutenção e outras funções do organismo. Isso significa que estes alimentos contêm alguma característica que os destaca dos alimentos comuns. O alimento funcional contém componentes que trazem benefícios à nossa saúde além dos seus valores nutricionais básicos. Esses alimentos podem, por exemplo, melhorar a função dos intestinos, reduzir níveis de colesterol, melhorar a imunidade, desde que seu consumo esteja associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis. 

No caso de alimentos industrializados, é necessária a comprovação científica da alegação de propriedade funcional e da segurança de uso.

Medilar News. Quais são os principais efeitos positivos advindos do consumo dos alimentos funcionais? 

Dra. Marcela Aimone. O consumo de alimentos funcionais tem como objetivo a manutenção geral da saúde e a redução do risco de doenças. Por exemplo: promover o bom funcionamento dos intestinos; reduzir o risco de doenças crônico-degenerativas (doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, câncer) e melhorar o sistema imunológico.

Medilar News. Quais são os alimentos funcionais mais consumidos atualmente no Brasil, e quais seriam os mais recomendados?

Dra. Marcela Aimone.  O Brasil é um ávido consumidor de alimentos funcionais. A facilidade com que alimentos naturais são encontrados, propicia a presença cada vez maior de alimentos saudáveis e funcionais na mesa dos brasileiros. Entre os muitos alimentos dessa categoria consumidos no Brasil, estão: aveia, vinho tinto, azeite de oliva, tomate, maçã, peixes, iogurtes, alho, cebola, soja, feijão, linhaça.

Os alimentos funcionais que eu recomendo, são os que se consegue encontrar com facilidade, acrescentar à rotina de forma prática, sem desagradar ao paladar ou agredir o bolso. 

Medilar NewsPara que os efeitos positivos dos alimentos funcionais possam ser sentidos, é preciso seguir algum tipo de dieta específica?

Dra. Marcela Aimone. Deve-se ter em mente que, em relação à manutenção da saúde, não existe fórmula ou alimento mágico. Os alimentos funcionais são um complemento à qualidade da nossa dieta. Eles devem fazer parte de uma alimentação equilibrada e rica em outros produtos que não precisam ser funcionais, para poder oferecer de maneira eficiente suas vantagens após o consumo. De nada adianta, por exemplo, consumir aveia no café da manhã com o intuito de melhorar a função do intestino, se você não se exercita, não toma água e não se preocupa com a qualidade das demais refeições do dia.

Medilar News.  Existe algum alimento que hoje é popularmente chamado de funcional (ou vendido como tal), mas que na prática, não apresenta nenhuma característica de funcional? Qual ou quais? 

Dra. Marcela Aimone. Em relação aos produtos naturais, não há problema no consumo, pois em maior ou menor escala, eles trarão algum benefício para a nossa saúde. Já com os alimentos industrializados, devemos estar sempre atentos. As alegações de propriedade funcional e de saúde devem estar baseadas em ensaios clínicos conduzidos com metodologia adequada ou em estudos epidemiológicos, e o rótulo do produto não pode conter informações que não sejam verdadeiras. Entretanto, o nome, a embalagem e a propaganda de certos alimentos, muitas vezes levam o consumidor a erro. Tudo que leva no nome “fit”, “nutri”, “diet”, pode induzir ao erro. Bons exemplos são as barrinhas de cereais e alguns biscoitos de fibras. Esses produtos podem até conter algum alimento funcional entre seus ingredientes, mas geralmente estão em mínimas quantidades, e acompanhados por grandes quantidades de sódio, açúcares e gorduras, que são extremamente prejudiciais à saúde.

Uma dica é ler a lista de ingredientes, pois eles são dispostos em ordem decrescente de quantidade presente no alimento. Por exemplo, se o alimento dito “fonte de fibras” coloca algum tipo de fibra lá no fim da lista de ingredientes, desconfie! Por isso é importante estar atento às informações nutricionais constantes nos rótulos. 

Medilar News. Atualmente, os chamados sucos Detox são extremamente populares e alguns deles são vendidos como funcionais. Podemos de fato considerá-los como tal?  

Dra. Marcela Aimone. Os alimentos “detox” ganharam a mídia por serem entendidos como sinônimo de emagrecimento, saúde e estratégia de limpeza das toxinas do corpo. Entretanto, faltam evidências científicas que amparam a utilização desses produtos.

O processo de desintoxicação ocorre de forma natural e diariamente no corpo humano, através do fígado, rins e intestinos.

A composição dos sucos funcionais é bastante heterogênea, e geralmente, nada mais é que uma salada líquida. O suco funcional pode ser consumido para complementar a alimentação, mas deve ficar claro que ele não faz milagre e nem substitui refeições.

Medilar News. Quais seriam as principais aplicações dos alimentos funcionais, pensando na saúde global do ser humano?

Dra. Marcela Aimone. Além das suas qualidades nutricionais básicas, os alimentos funcionais proporcionam vários benefícios para a saúde, como: promover o bem-estar; melhorar o sistema imunológico; melhorar o funcionamento dos intestinos; reduzir o risco de aparecimento de doenças como doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, alguns tipos de câncer. Esse efeito benéfico, entretanto, não deve ser confundido com capacidade de cura de doenças, mas sim com a habilidade de melhorar e controlar sintomas.

Medilar News. Seria possível montar uma dieta baseada somente em alimentos funcionais? Seria viável? 

Dra. Marcela Aimone. Uma dieta saudável deve ser composta por alimentos naturais, funcionais e não funcionais, evitando o consumo de alimentos industrializados. O importante é ter equilíbrio e fazer escolhas saudáveis.

Pensar em uma alimentação composta apenas por alimentos funcionais, apesar de possível, não é necessário e nem saudável. A preocupação excessiva com o que se come gera um distúrbio psiquiátrico chamado ortorexia nervosa. A ortorexia está relacionada com a obsessão por alimentos saudáveis e nutritivos de forma exagerada. As pessoas com este quadro apresentam uma preocupação excessiva com a qualidade da alimentação limitando a variedade; e acabam excluindo certos grupos como carnes, laticínios, gorduras, carboidratos sem fazer a substituição adequada podendo levar a quadros de carências nutricionais ou a um quadro completo de distúrbio da conduta alimentar.

Medilar News. Em algumas patologias pode-se dizer que a indicação de consumo de alimentos funcionais é tão importante quanto a prescrição de medicamentos? 

Dra. Marcela Aimone.  De maneira geral, uma alimentação saudável é essencial para a manutenção ou recuperação da saúde. Uma dieta equilibrada deve ser composta por alimentos naturais, funcionais ou não.

Para certas patologias, o alimento natural, funcional ou não, é sim muito importante. Em tratamento contra hipertrigliceridemia, por exemplo, se tomo o medicamento e não cuido da minha alimentação, eu atrapalho meu tratamento. Outro exemplo é o diabetes tipo II. Não adianta tomar o hipoglicemiante oral se minha alimentação é rica em carboidratos refinados e frituras.

Entretanto, é preciso ter muito cuidado quando falamos de doenças como o câncer, em que o tratamento depende de quimioterapia ou radioterapia. Não podemos confundir alimentos funcionais com medicamentos. Esses alimentos não possuem finalidade terapêutica ou medicamentosa. Eles trazem como benefício a redução do risco de doenças, não a sua cura.

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