Dor intensa durante o ciclo menstrual não é normal. Ainda assim, milhões de mulheres convivem com esse sintoma por anos sem diagnóstico, tratamento adequado ou acolhimento.
É justamente para mudar esse cenário que existe o Março Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre a endometriose.
Mais do que informar, a campanha busca ampliar o diálogo, reduzir atrasos no diagnóstico e reforçar que cuidar da saúde feminina é uma pauta de saúde pública.
Essa realidade não é distante – ela faz parte da vida de muitas mulheres.
“Receber a notícia que você tem endometriose é avassalador e libertador ao mesmo tempo. Avassalador porque ninguém quer receber a notícia de que tem uma doença. E libertador porque sua dor tem um nome e um tratamento”, relata Ruana Souto, Coordenadora de Operações do SOS Unimed Goiânia/Medilar.
O que é o Março Amarelo?
O Março Amarelo é uma campanha de conscientização voltada à endometriose, uma doença inflamatória crônica que impacta diretamente a qualidade de vida, a saúde física, emocional e reprodutiva de mulheres em idade fértil.
Seu principal objetivo é romper o silêncio em torno da dor, combater a normalização do sofrimento e incentivar a busca por informação e acompanhamento médico especializado.
O que é a endometriose?
A endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao endométrio — que reveste o útero — cresce fora dele, podendo atingir órgãos como ovários, trompas, intestino e bexiga. Essa condição pode causar dores intensas, alterações no funcionamento do organismo e impactos significativos na rotina.
No vídeo abaixo explicamos de forma lúdica como a endometriose se forma:
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a endometriose afeta cerca de 176 milhões de mulheres em todo o mundo, sendo mais de 7 milhões somente no Brasil. Já a FEBRASGO aponta que a doença está associada à infertilidade em aproximadamente 30% a 50% dos casos.
Principais sintomas da endometriose
Embora a dor seja o sintoma mais conhecido, a endometriose pode se manifestar de diferentes formas. Entre os sinais mais comuns estão:
- Cólica menstrual intensa e progressiva
- Dor durante ou após as relações sexuais
- Alterações intestinais no período menstrual
- Dor lombar frequente
- Sangramentos irregulares
- Fadiga constante
Reconhecer esses sinais é essencial para buscar ajuda médica e evitar a progressão da doença.
Mas, na prática, muitas mulheres aprendem a ignorar esses sinais — e é aí que mora um dos maiores riscos.
“Eu convivi e suportei dores que ninguém via. Durante anos, ouvi que era ‘normal’, que era só cólica, que eu precisava aguentar, mesmo com o corpo gritando que não estava tudo bem”, compartilha Ruana.
O desafio do diagnóstico
Um dos grandes obstáculos no enfrentamento da endometriose é o atraso no diagnóstico. Muitas mulheres convivem com os sintomas por anos, já que a dor menstrual ainda é, culturalmente, tratada como algo normal.
“Eu sei como é sentir dor e achar que ninguém entende. Mas não era normal viver limitada todos os meses”, reforça Ruana.
Esse atraso pode comprometer a qualidade de vida, agravar os sintomas e dificultar o tratamento. Falar sobre endometriose é, portanto, uma forma de reduzir esse tempo e ampliar as possibilidades de cuidado.
Endometriose tem cura?
A endometriose é uma condição crônica e não possui cura, mas tem tratamento. O acompanhamento é individualizado e pode envolver medicamentos, mudanças no estilo de vida e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos.
Em casos mais avançados, o tratamento pode ser complexo — como no relato de Ruana:
“Recebi o diagnóstico de endometriose profunda em grau máximo. Foram 60 dias de preparo entre dieta e exames, e uma cirurgia de 8 horas. Eu tinha o ovário comprometido, trompa obstruída e até impacto na função renal.”
O objetivo do tratamento é controlar a dor, reduzir a inflamação e melhorar a qualidade de vida da paciente.
Alimentação como aliada no controle da endometriose
A alimentação não substitui o tratamento médico, mas desempenha um papel importante no controle da inflamação e dos sintomas.

Pequenas mudanças na rotina alimentar podem gerar impactos positivos no bem-estar ao longo do tempo.
Cuidado integral: corpo, mente e rotina
O tratamento da endometriose vai além do físico. Por se tratar de uma condição crônica, o cuidado deve ser integral.
Com o tempo, Ruana também percebeu essa necessidade na prática:
“Com acompanhamento médico, informação e apoio, eu aprendi a entender meu corpo, respeitar meus limites e, principalmente, me priorizar.”
A prática de atividade física regular, respeitando os limites do corpo, contribui para o controle da dor e melhora da disposição. O acompanhamento psicológico é fundamental para lidar com os impactos emocionais da dor crônica, ansiedade e frustrações. Já o gerenciamento do estresse é essencial, pois níveis elevados podem intensificar processos inflamatórios.
Impactos da endometriose na vida profissional e social
A endometriose não afeta apenas o corpo. A dor crônica pode impactar a concentração, o desempenho no trabalho, as relações sociais e a saúde mental.
“A endometriose me ensinou sobre força, limites e, principalmente, sobre a importância de falar. Hoje, eu não estou sozinha. E você também não está”, destaca Ruana.
Por isso, falar sobre o tema também é promover empatia, acolhimento e ambientes mais conscientes.
Quando procurar um médico?
É importante buscar avaliação médica sempre que houver:
- Dor intensa que não melhora com analgésicos
- Sintomas que pioram ao longo do tempo
- Impacto na rotina, no trabalho ou na vida social
O diagnóstico precoce faz toda a diferença no controle da doença.
E, acima de tudo, é essencial escutar o próprio corpo.
“Se você sente que algo não está certo, procure ajuda. Insista. Por muito tempo eu me calei. Hoje eu escolho compartilhar. Dor não é normal. E você merece viver sem ela.”
